As raízes de um bairro que me formou
Quando escolhi a IP de Beberibe para celebrar o culto de Ações de Graça pelo meu casamento, minha mãe Iraci perguntou: “por que Beberibe?” A resposta era simples: porque foi lá que tudo começou. Outra coisa que me motivou a escrever foi ao assistir o noticiário e receber notícias sobre a fortes chuvas que caíram em todo o estado de Pernambuco, notadamente na região metropolitana do Recife, inclusive meu querido bairro de Beberibe.
Nasci naquele bairro e, no final dos anos 80, morei ali com alguns irmãos — Sandeji, Stênio, a querida Ionar e Paulo Henrique, o sobrinho que ajudei a criar e que considero como filho. Ionar e Paulo Henrique mãe e filho, ainda estão no bairro, enfrentando os desafios da zona Norte da cidade. Mas, sobre eles é assunto para outro texto.
Naquela época, Beberibe respirava adolescência juventude. Era possível sentar na calçada e “tricotar histórias” com os vizinhos, cujos nomes todos sabiam e em quem muitas vezes se podia confiar nas horas de necessidade. Apesar da recessão econômica e do desemprego da época, conseguia-se viver — e, graças à Deus, consegui me empregar, o que trouxe grande alívio. O bairro leva o nome do Rio Beberibe, que o corta quase ao meio, separando Recife de Olinda, mas unindo moradores de um mesmo lugar. A Avenida Beberibe, no sentido norte-sul, funcionava como espinha dorsal do bairro, concentrando o comércio e os serviços da região. Há também a famosa Feira de Beberibe, com seu intenso frenesi parecendo em alguns momentos, uma “muvuca só”! Rs rs rs…
A Igreja e a família que escolhi
A Igreja Presbiteriana de Beberibe ocupa um lugar especial nessas memórias. Foi ali que atendi ao chamado do Senhor Jesus e que conheci pessoas que se tornaram família — Iraci Marinho, Flávio, Cea e Míriam, hoje para mim Mãe Iraci, irmão e irmãs. Aquela comunidade era ponto de encontro, consolo e aprendizado. A União de Adolescentes Presbiterianos (UAP) e a União de Mocidade Presbiteriana (UMP) eram famosas por sua atuação ativa no Presbitério Norte de Pernambuco. Nos fins de semana, alguns jovens e adolescentes jogavam bola num terreno ao lado da igreja — peladas improvisadas, suor e risos que faziam daquele espaço simples um campo de afetos inesquecíveis.
Quem fez Beberibe ficar feio?
Pego emprestada a pergunta amarga de Manuel Bandeira — “quem fez o Recife ficar feio?” — e a direciono ao meu bairro: quem fez Beberibe ficar feio? Hoje, a nostalgia se mistura à dor. As chuvas, cada vez mais intensas, transformam ruas em rios. Inundações entram nas casas, trazem detritos e deixam rastros de destruição que se repetem ano após ano. O acúmulo de lixo nas margens agrava tudo: drenagem entupida, córregos assoreados, descarte irregular. A água, que deveria ser elemento de vida, torna-se agente de destruição, e a cada enchente, promessas de solução se perdem entre burocracias e improvisos.
Ao mesmo tempo, cresceu um clima de insegurança. A violência, antes menos presente, passou a rondar mais de perto. A ansiedade substituiu o conforto das conversas de porta. Jovens que antes disputavam peladas hoje enfrentam menos espaços de lazer e menos perspectivas. O comércio luta para sobreviver entre fechamentos, medo e custos crescentes. É difícil não sentir que parte do Beberibe que amávamos foi corroída pelo descaso — não apenas sua estética, mas sua dignidade, sua memória e o direito dos moradores à cidade.
Resiliência, saudade e cobrança
Ainda assim, há resistência nas pessoas e na fé. Moradores limpam suas casas após as enchentes, vizinhos se ajudam, e a Igreja Presbiteriana segue acolhendo e oferecendo suporte espiritual e social. Beberibe não é só suas mazelas: são também as histórias guardadas nas casas, as receitas passadas de geração em geração, os irmãos e amigos que fiz como os da família Oliveira (o amigo Núzio, Luiziana, Sr. Oliveira, D. Nazinha, Nilson, Nanci, Nestor, Núbia, Núzia), os amigos Santos e Mauro, Kátia Goreth, Raquel, Ruth, Cilene, Conceição, Edilene, Leda, Josemildo, Romildo Jr e Rômulo, esses três últimos irmãos e filhos do casal Romildo/ Jozelúzia, Sebastião, entre tantos outros irmãos e irmãs valorosos e crentes fiéis. Inesquecíveis também as reuniões da UPA e UMP, as vozes nos cultos, os “corinhos” e hinos que cantávamos juntos e também o som das peladas.
Fecho com saudade, fé e cobrança. Guardo as primeiras imagens do bairro como patrimônio íntimo e pergunto, com a voz de quem não desistiu: quando faremos Beberibe voltar a ser o lugar onde crianças possam brincar sem medo, onde a chuva traga apenas lembranças e não destruição, e onde a beleza do nosso bairro seja reconhecida e cuidada?

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